O nome do programa

01/06/2009 por Daniel Jacob
Pravdoliub Ivanov

Pravdoliub Ivanov

Nunca a televisão havia sido tão bela aos meus olhos. Talvez nunca tenha me emocionado tanto ao assistir a um trabalho feito para o formato, provavelmente não havia lhe dado chance, quem sabe. Acho que fui pego de surpresa, feliz vítima do preconceito. Devo ter dito em alguma oportunidade, sem nunca ter visto com verdadeira atenção além de trechos, por uma espécie de pretensão infundada, talvez para não parecer bobo àqueles que a haviam experimentado, que sim, parecia ser mais um trabalho maravilhoso deste sensível diretor. Fui preso sem chance de fuga por uma trama simplesmente irresistível, de um autor a quem apenas vagamente lembrava de um livro lido sem interesse e contra a vontade no colégio. Como as coisas mudam, pelo menos agora poderei dar a chance não ao autor, como se costuma dizer por aí, mas a mim mesmo de conhecer o seu trabalho.

Foi logo de início que fui entorpecido pelo lento movimento de câmera, embalado pela trilha sonora, em especial à música clássica, que tanto me acompanhou desde o fim da adolescência, que em menos de cinco minutos já me deixara nostálgico ao perceber que estava vendo àquela obra prima pela primeira vez. E a bela fotografia, tão bela que parece lamentar a falta de película para que assim fosse apresentado às futuras gerações, mas não faz mal, nem um pouquinho. É fácil se sentir lá, trajando um figurinho belíssimo, passeando por ruas suspensas no tempo, numa época onde as coisas deveriam ser mais simples, mas transbordavam de complexidade.

Jamais esquecerei dos sentimentos que tive, em especial a sensação de não ter fôlego o suficiente para o longo e sublime encerramento da história. Um trabalho conduzido com sensibilidade, maestria e principalmente amor, pois não imagino outra forma de ele ter sido realizado. Sentirei falta dos personagens e já estou ansioso pela hora de revê-los, matar as saudades como fazemos com os verdadeiros amigos. Sem lamentos, em breve irei fazê-lo ao virar a primeira página deste, certamente maravilhoso, livro.

Calote

06/05/2009 por Daniel Jacob

Amy Casey

Amy Casey

Ele ziguezagueava pela avenida desesperadamente à procura de brechas, precisava chegar lá imediatamente. Saíra em disparada a instantes da hora do rush e chegaria lá no momento exato em que trabalhadores desocupariam as vagas na rua para enfrentar o trânsito a caminho de casa. Não tinha ânimo para comemorar a sua proeza, estava em pânico e perdia muito sangue.

Já havia feito esse tipo de pilantragem em restaurantes, bares e até no boliche, mas desta vez ele tinha se fodido. Como ela se chamava não tinha a menor importância, pois era uma dessas que adotavam pseudônimos americanizados, very annoying. Não era bonita e fedia a fim de noite, como cerveja esquecida num cinzeiro. Levou-a ao motel, disse que queria o pacote completo e assim teve. Malinou a coitada como pôde e por onde dava pra entrar, ela nem aí, inexpressiva. Depois, a pressa o induziu ao erro, pois enquanto os lábios dela ainda sugavam os restos do fim daquela tarde, ele declarou que não ia pagar, que não tinha dinheiro.

Nhac! Viu estrelas quando balançou a cabeça, precisava ficar no presente, no carro, focado. Estava pálido como um cadáver, o coração acelerado empapava e mudava a cor de suas calças. Chegou ao hospital e lá estava uma boa vaga, mas tinha de fazer baliza. Levou o carro à frente e começou a virar o volante, não tinha direção hidráulica. O esforço nunca tinha sido tão grande, virou para o outro lado, a impressão era de perder mais sangue a cada volta, esguichando a cada arrastar do pneu, sentiu náuseas, fraqueza. Deu ré, sempre estacionou muito bem, virou novamente o volante para endireitar, sua vida escorria pelas calças. Sempre foi assim. Colocou na primeira marcha, avançou brevemente com a embreagem e parou na exata distância entre o detrás e o da frente. E pronto.

Preto e caju

29/04/2009 por Daniel Jacob
Brock Davis

Brock Davis

O pulsar ocasional da luz fria era acompanhado por um zumbido quase imperceptível. O corredor parecia respirar sombriamente. A mão já cansada desde antes do café da manhã puxou a porta pesada com esforço, dava para sentir sulcos microscópicos enferrujados no metal e um medo surgiu e sumiu instantaneamente como o flash da câmera que lhe surrupiaram na semana anterior. Corroia-lhe por dentro saber que os ensaios, digamos, experimentais, estavam nas mãos de um estranho. Isso era muito mais perigoso que o tétano.

Entrou no cubículo e apertou o botão, o ventilador começou a funcionar. O leve solavanco atiçou a sua imaginação e quase pôde ver o fosso negro abaixo dos pés. Mas não sentiu angústia por isso, tinha problemas maiores a resolver. Décimo andar, entra um homem de uns cinqüenta e cinco anos. Grunhiu algo e ouviu outro grunhido de volta, como nos tempos das cavernas, imaginou. Oitavo andar, entra um homem aparentemente com a mesma idade do anterior, um discreto balançar de cabeças contagia os ocupantes daqueles poucos metros quadrados.

Porém, o que lhe despertou da apatia foi notar que, naquele elevador havia dois homens com ele, ambos com o dobro de sua idade, mas ele era o único que tinha alguns fios de cabelo branco.

Fumódromo I

23/04/2009 por Daniel Jacob
Heiko Muller

Heiko Muller

Todos os dias, não importando a máxima ou a mínima prevista para a temperatura na cidade, ele dirigia-se ao fumódromo da empresa. Não que ele fumasse, jamais pôs um cigarro na boca. Não considerava o cigarro um símbolo de sucesso, charme ou rebeldia.

Durante a adolescência fez isso de outra forma, em vez dos cigarros escondidos no banheiro do colégio, optou por escrever o nome de quem não gostava com o branco da caneta corretivo nas carteiras da sala de aula para que outros levassem a culpa. Em casa, o ato terrorista não era bem sucedido, considerando que era filho único e não tinha como justificar os nomes grafados na mesa de jantar escolhida com tanto cuidado e quitado em tantas parcelas sofridas por sua mãe.

No fumódromo, puxava conversa pequena enquanto peidava sem som, técnica desenvolvida durante anos e que hoje executava com maestria. Apenas borrifava e caminhava para aumentar o raio de ação, cercando os colegas de trabalho discretamente com o seu café da manhã.